ENTREVISTA CONCEDIDA AO JORNAL PRANA


 

12/04/2004

Como precursor do DO-IN no Brasil, ainda na década de 70, o Prof. JURACY CANÇADO relata como tem observado e comprovado suas técnicas no decorrer dos anos numa ENTREVISTA concedida ao JORNAL PRANA em março de 2004.


1) O que mudou na concepção do seu trabalho de lá pra cá?
 
R – Imagino que o meu trabalho tem buscado se situar dentro das premências desse nosso tempo marcado por um crescente processo de transformação. Para muitos de nós que tivemos uma convivência participativa com o movimento de implantação e difusão das artes terapêuticas orientais em nossa cultura, métodos acessíveis como o do-in serviu de ponte para uma verdadeira terra incógnita: o então insondável terreno energético humano. Foi uma época de muita experimentação e pouco entendimento, mesmo por que os precursores dessas práticas tinham - e de certa forma, ainda têm - mais perguntas do que respostas a oferecer. Meus Workshops de iniciação em do-in tiveram principalmente o objetivo de abrir portas, superar resistências e sensibilizar mentes e corações para as impensadas possibilidades de crescimento que essas técnicas representam. Hoje o cenário é bem diferente. A explosiva popularização desses métodos de intervenção energética, a forçosa convivência da nossa medicina ortodoxa com a constrangedora eficácia da acupuntura, e a espantosa proliferação de profissionais atuantes nessa área deixa claro que aqueles pratos exóticos se tornaram iguarias bastante palatáveis para a nossa cultura.
Essa importação maciça foi grandemente facilitada pela assepsia pragmática a que foi submetida à tradição médica chinesa na própria fonte. Despida de seus preceitos filosóficos essenciais e destituídos de qualquer conotação de ordem metafísica e espiritual, a Medicina Tradicional Chinesa embalada na China contemporânea serve bem a dois propósitos: se ajusta confortavelmente dentro da ideologia do materialismo dialético e ainda se mostra extremamente atraente para o imediatismo consumista do ocidental. Práticas originalmente destinadas ao aprimoramento do corpo mentem e ao refino da consciência são hoje ofertadas como meras técnicas para promover o bem estar e ampliar a produtividade física. Mas isto não implica dizer que a acupuntura que se aprende hoje na China não tenha seu valor. Pelo contrário, do ponto de vista exclusivamente técnico ela tem se aprimorado, com contribuições tecnológicas e verificações científicas. O lamentável é que, distanciada do principal conteúdo filosófico que lhe deu origem - a analogia entre a teoria da criação na cosmo visão taoísta e o processo de geração de energia no corpo humano - e incompatível com o reducionismo das explicações clássicas ocidentais, se mostre carente de um construto teórico à altura das suas extraordinárias possibilidades terapêuticas.Após infrutíferas tentativas de se acomodar essa tão distinta abordagem curativa nos escaninhos médicos convencionais, começamos a nos dar conta de que, ou a acupuntura – e, por extensão, todo o universo das práticas chinesas - será entendida a partir da sua gênese, ou nunca o será. Uma questão preocupante, se considerarmos o dito chinês: “sem a prática a teoria é inútil; sem a teoria a prática é perigosa”. É dessa constatação que o meu atual trabalho - um training–formação em fisiologia energética chinesa - busca-se atualizar. Utilizando como suporte prático os tradicionais exercícios taoístas de auto-aprimoramento, o programa propõe, a guisa de complemento ao substancial conhecimento técnico que atualmente dispomos nesse campo, um espaço para a reflexão e a busca de um entendimento aprofundado dos fundamentos que dão significados a esses valiosos instrumentos de transformação. A meta seguinte é promover o diálogo do sistema chinês com outros importantes mapeamentos utilizados nas práticas corporais energéticas - o sistema dos chacras da tradição védica e os anéis musculares mapeados por
W. Reich - investigando seus pontos de contato e suas possibilidades integrativas.
 
 
2) Qual a importância do pensamento taoísta dentro da terapêutica chinesa?
 
R – É de importância fundamental. Uma característica notável desse pensamento essencialmente analógico _ um pensamento “em campos”, bem próximo à maneira de pensar dos físicos modernos _ é ser profundamente marcado pela noção de eficácia. Todos os seus símbolos e emblemas – Tao, Chi, Yin-Yang – são dotados de uma poderosa eficiência realizadora, norteadores da conduta e facilitadores do crescimento. Sua “filosofia em ação” orienta-se pela perspectiva arquetípica dos princípios perenes que governam o Céu _ perenes porque imunes aos desgastes provocados pelo tempo _ , verificados e aplicados a todas as atividades humanas na Terra. Na tradição médica chinesa tais princípios resultam em leis terapêuticas de importância definitiva no trabalho clínico. Mas é um grande equívoco confiná-los aos limites do consultório. Se assim fazemos, podemos nos tornar bons acupunturistas, mas não necessariamente pessoas melhores, já que a maior serventia dessas ferramentas de transformação é transformar aqueles que as utilizam. Importar filosofias e práticas de civilizações distantes no espaço e no tempo, sem incorporar os fundamentos que lhes dão origem é uma boa maneira de mudar apenas a forma de se repetir.
 
 
3) Qual o objetivo das terapias energéticas? Quais os seus benefícios?
 
R – Quase todas as terapias orientadas a partir da perspectiva da energia partem da premissa de que o organismo humano, bem como a consciência que nele emerge, compõem-se de distintas dimensões que vão desde a tridimensionalidade pouco consciente do corpo físico até às multidimensões transconscientes do espírito. Geralmente partindo do território somático, essas abordagens buscam explorar as camadas mais rarefeitas do amplo espectro do ser com o intuito de identificar e desfazer cisões e obstruções no terreno energético e reintegrar aspectos dissociados da consciência. Para isso se valem de distintos e elaborados mapeamentos que retratam correspondências específicas entre os órgãos internos, emoções, sentimentos, processos mentais e qualidades espirituais. Tais mapeamentos diferem porque suas metas _ os particulares níveis do espectro que retratam _ diferem. Mas como as “faixas do espectro do ser” têm seus pontos de contato e imbricam um tanto umas nas outras faixas, todo trabalho energético habilidosamente conduzido exibirá em maior ou menor grau suas possibilidades de reequilíbrio da totalidade do indivíduo.
 
 
4) Qual a relação entre meridianos (chineses), chackras (védica) e anéis musculares reichianos?
 
R – Além de representarem notáveis sistemas de cura, esses três mapeamentos se destacam por abordar os três grandes campos do terreno energético: os domínios do corpo, da mente e do espírito. Os anéis musculares são corporificações de padrões de desequilíbrio emocional-mental-fisiológico cronificados. O desequilíbrio crônico é sempre associado a uma tensão muscular e postural em áreas específicas, caracterizando um padrão psicológico fixo, um padrão recorrente de longa duração cujos efeitos já impressionam os tecidos e os músculos reflexos.
A couraça somática é a versão tridimensional de uma desesperada atitude de defesa do caráter que se congela na repetição carmática. No extremo oposto do espectro, o sistema do chacras estrutura-se como uma sutilíssima faixa intemporal e não localizada _ uma espécie de quinta dimensão do ser _ cuja função é interconectar todos os aspectos do corpomente e alinhá-los em ressonância com os domínios transpessoais do Espírito. Como na esfera quântica _ o campo das probabilidades -, nesse universo holográfico pleno de energia potencial, tudo se encontra “em qualquer lugar nenhum”. É nessa esfera rarefeita da totalidade que os chacras atuam como arquivos primários da experiência, bancos de dados, centros acumuladores das nossas potencialidades e restrições cármicas. O sistema dos meridianos representa a esfera energética, propriamente dita. É por essa rede dinâmica que se dá a mediação entre
o corpo físico e sua contraparte sutil, e portanto entre os dois sistemas mencionados.
Ao longo dessa “interface físico-etérica”, uma quarta medida, o tempo, organiza e conduz os processos psicofísicos. A arborização dos meridianos_ os “rios de Chi” _ descreve um verdadeiro corpo de interrelações do homem com o mundo. É por retratar essa faixa intermediária entre o território somático e a anatomia sutil que a fisiologia energética chinesa exibe uma surpreendente riqueza de correspondências no seu sofisticado modelo psicossomático. E é o que justifica e faz desejável uma tendência, cada vez mais acentuada nos estudos comparados das terapias energéticas, de se utilizar o sistema chinês, e as valiosas práticas corporais que nele se apóiam, como elemento central nas junções terapêuticas.

 
5) Quais os quatro princípios que regem as práticas corporais chinesa?
 
R – As artes terapêuticas chinesas como um todo se presta à facilitação de um processo alquímico que se dá nas profundezas viscerais do corpo: a transformação do Jing (Essência, ou força potencial que manifesta a vida) em Chi (Vapor, ou energia atuante que conduz os processos), e do Chi em Shen (espírito, ou energia consciente). Para esse propósito as práticas corporais chinesas, em geral, se apóiam em quatro princípios básicos de mobilização energética: regular o corpo, a respiração, a mente e o Chi.
Regular o corpo é posicioná-lo de forma a que sirva de estrutura material apropriada para as operações energéticas que ali ocorrem. É aquilo que os hindus chamam de Ásana, postura correta. Regular a respiração é resgatar a forma natural e econômica de exercer essa atividade vitalizante, geradora das energias corporais e mediadoras entre o corpo e o seu entorno. A sincronia da respiração harmoniosa – lenta, suave, profunda e rítmica - com posturas e movimentos corporais é a forma mais poderosa de ordenar as funções do corpo-mente. Regular a mente é aquietá-la e utilizá-la conscientemente na condução dos fluxos energéticos através do corpo, por meio das meditações curativas. Os taoístas dizem que para onde vai o mental, vai a energia. Por fim, regular o Chi - o que só é possível após atender às condições anteriores- é mobilizar o caudal energético e desfazer as obstruções no seu fluxo, mantendo abertos esses caminhos que conduzem a vida.
 
 
6) Na sua opinião, porque o homem está tão doente ?
 
R – Já foi dito que a condição humana é mais ou menos doentia. Se entendemos a doença como uma identificação exclusiva com certos aspectos do incomensurável potencial de crescimento humano e com as conseqüentes repressão e projeção da contraparte negada, então nossas atuais limitações são bastantes evidentes. Todo ser encarnado encontra-se em estado de relativa amnésia, identificado com domínios restritos de si mesmo_ aqueles que consegue perceber e integrar. Nesse sentido, andamos bastante esquecidos, todos nós. Mas é importante considerar que, como o crescimento implica a evolução da consciência – essa anamnese curativa _ o processo passa necessariamente por dar-se conta da nossa condição inata de torpor espiritual. Pois, ao contrário do que imaginam os românticos, o embrião humano não está integrado com a totalidade, mas inconscientemente fundido com ela. Como interpreta Ken Wilber, a expressão angelical do recém-nascido, longe de expressar o sentimento paradisíaco de união com o Todo, apenas retrata sua não percepção do inferno da separatividade do qual
emergimos. Em outras palavras, esse estado de fusão não é o céu inconsciente, mas o inferno
inconsciente. Abrir os olhos para essa realidade _ de se encontrar cindido e aprisionado nos domínios hostis da dualidade _ é uma experiência bastante dolorosa, sem dúvida, mas é também o primeiro e necessário passo no processo de transcendê-la. Ocorre que há um preço a ser pago pelo aumento da consciência, e cada nova etapa de crescimento traz os seus riscos: Se eu não consigo integrá-la, posso escorregar e me machucar seriamente. Como fala Guimarães Rosa: viver é muito perigoso. Mas mesmo atravessando fases declinantes, o homem evolui - acidentes de percurso são experiências inerentes ao aprendizado. É esse o sentido da doença como caminho; perceber-se escravizado é a única possibilidade de libertação. Digo isso porque, apesar do mundo um tanto louco que criamos, não penso que devemos descrer do nosso poder de curá-lo.
No taoísmo o homem ocupa uma posição respeitável: situado entre a Terra e o Céu, ele é o Meio, o ponto de convergência da existência e da consciência, uma vez que constituído de ambos. Sua vocação é superar a condição de escravo do tempo e dos instintos e reconciliá-la com as aspirações ao divino como habitante da eternidade. Tudo isto é muito edificante, é certo, mas não há como discordar de que o homem atual se encontra muito doente. Mas não vejo nisso necessariamente uma involução: não éramos melhores quando dispunhamos de menos recursos para gerar tanta violência, por exemplo. Acho mesmo que muito dessa alienação ética-moral-espiritual que caracteriza o nosso tempo resulta do intenso processo de crescimento a que a humanidade vem sendo submetida nessa fase crítica de mudança de paradigmas. A descoberta do inconsciente, as novas e revolucionárias descrições da realidade produzidas pela física quântica, a transcendente cosmovisão oriental, tudo isso é ainda muito novo e nebuloso para a nossa compreensão. Integrar esses novos valores e incorporá-los aos nossos estilos de vida é uma tarefa extraordinária que ainda nos causa intensos conflitos e desorientação. E é por essa razão que hoje, mais do que nunca, necessitamos nos apoiar em confiáveis práticas de aprimoramento pessoal e, igualmente importante, na compreensão dos princípios que dão a elas significado. Se você não interpreta adequadamente aquilo que lhe está ocorrendo, isto acabará o deixando muito confuso; se a experiência for muito intensa você corre o risco de ficar louco.
 
 
7) Qual o segredo da saúde?
 
R – Bem, em primeiro lugar não podemos esquecer que vivemos em um mundo relativo, no plano da dualidade não há espaço para absolutismos. O Talmud - o código de ética dos antigos hebreus - sintetiza bem a questão: tudo o que é adequado é fruto de uma tensão. Para me manter de pé ou praticar qualquer ato, por exemplo, necessito de um tanto de relaxamento e entrega e de outro tanto de contração e resistência muscular. Para a sabedoria taoísta, todas as nossas ações são fruto de uma “preferência afetiva”, e toda eleição pressupõe uma exclusão. Isto é inevitável, é o que se chama de livre arbítrio. Essas escolhas, contudo, têm seu valor dentro do tempo: são, como tudo mais, impermanentes. Após o seu “prazo de validade”, serão compensadas e relativamente equilibradas por sua polaridade oposta (após inspirar, você expira etc). Se insistem em se tornar definitivas, essas opções se transformam em “parcialidades intelectuais”, os fundamentos do preconceito.
Eu diria que o segredo da saúde está em poder lidar com as contradições inerentes ao exercício da vida, buscando transformá-las no paradoxo que integra e confere dignidade a ambos os lados do conflito. Ou, dito de outra forma: é saber responder adequadamente as perguntas - novas, sempre novas- que a vida nos traz.
 
 
8) Você poderia ensinar alguma prática (ou rotina) diária que as pessoas posam fazer como investimento para um corpo saudável?
 
R – Nosso contato com o universo das práticas corporais energéticas do Oriente tem enriquecido bastante nossas possibilidades de manutenção e aprimoramento da saúde. Muitos desses métodos - como o DO-IN, o TAO-YIN e alguns estilos de CHI KUN- são extremamente simples e acessíveis, mas por outro lado exigem um contato direto entre o iniciante e seu facilitador para seu aprendizado. Contudo uma rotina extremamente singela, mas vitalizante prescinde desses preparos: ainda na cama, ao despertar, antes mesmo de abrir os olhos, posicione-se de costas e lenta e suavemente eleve os braços e as pernas (posição do bebê); depois esfregue vigorosamente as faces internas dos pés e das mãos a partir dos tornozelos e dos pulsos, por cerca de trinta segundos. Coloque então as palmas sobre os olhos ainda fechados, respire profundamente e, só agora abra os olhos com intensidade e os mantenha fixos nas palmas das mãos enquanto elas se elevam acima da face. Abaixe os membros, estire os braços para trás da cabeça e inicie um espreguiçamento, alongando todo o corpo. É um procedimento bastante relaxante e energizante, ideal para se começar o dia. E você poderá então dar início a um BANHO SECO.
 
 
9) Como você vê a atual situação desse movimento de transformação pessoal e cultural chamado novo paradigma?

R – Considerado o mais lúcido e abrangente pensador dos nossos tempos, o psicólogo transpessoal Ken Wilber avalia com precisão esse cenário, identificando as “três ondas ”que o movimento do potencial humano vem atravessando nas últimas décadas. Emergindo do caldo contracultural dos anos 60, a Primeira Onda reflete o espírito daquela época: um movimento explosivo e radical, voltado para soluções rápidas por meio de workshops de fins de semana e seminários de autotransformação a curtíssimo prazo. Dez anos depois, constatou-se que essas “ experiências de pico”, embora úteis para um despertar inicial, geravam resultados que rapidamente se diluíam, algumas vezes deixando mais conflitos que benefícios. O aprofundamento através de práticas verdadeiramente transformadoras envolvendo disciplina, perseverança e tempo marcou a tônica da Segunda Onda. Mas até mesmo esse compromisso duradouro com uma valiosa linha de crescimento, vivenciado com intencionalidade e dedicação constantes, mostrou incômodas limitações: o desenvolvimento de uma faculdade isolada do potencial humano, em detrimento das demais, acabou se revelando uma forma de acrescentar mais desarmonia ao organismo, pela resultante assimetria dos seus fluxos de crescimento. O contraste entre uma linha de desenvolvimento super-evoluída e outras atrofiadas deixou muitos praticantes dedicados numa situação de desconforto e desorientação. Finalmente, a fase de trabalhos de crescimento específicos começa a dar lugar a um movimento de prática integral, uma Terceira Onda marcada pelo diálogo e o intercâmbio entre os diferentes aportes ao amplo espectro do ser. O atual estágio germinal dessa tendência integrativa não impede que já seja reconhecida por corações e mentes sensíveis como o único modo de compreensão do incomensurável potencial de transformação do ser humano. É por meio desse trabalho gigantesco que o homem se surpreende e se descobre maior, à altura de sua obra. E é esse o desafio do nosso tempo. Minha esperança é que esse meu atual training/formação - dedicado à investigação da fisiologia psicossomática chinesa e das suas possibilidades integrativas com outras importantes abordagens orientadas a partir da perspectiva da energia se mostre uma boa prancha para se surfar na crista da terceira onda.

 
O Espaço | Terapeutas | Agenda | Novidades | Mural |Terapias | Fotos | Contato
Desenvolvido por VirtuaComm Soluções internet